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Debate: A questão de gênero no livro “O Protegido” (vídeo)

Talvez quase toda leitora voraz de literatura fantástica já tenha se deparado com a questão “onde estão as mulheres protagonistas da fantasia?”. Em um mundo abarrotado de Harrys, Bilbos, Ablons e Arlens, qual é a real representatividade das personagens femininas?

A questão é muito ampla para ser debatida em apenas um post, então prefiro dedicar este à representatividade feminina no Ciclo das Trevas, série de livros escrita por Peter V. Brett e publicada no Brasil pela DarkSide Books, e, mais especificamente, em seu primeiro volume, O Protegido, já resenhado aqui no blog. Afinal, quem é Leesha? Uma protagonista ou uma personagem de apoio para o Protegido?

Já aviso que este post, assim como o vídeo, está recheados de spoilers, então se você ainda não leu o livro, clique neste link para ver a minha resenha sem spoilers.

Quando lia os primeiros capítulos de O Protegido, de Peter V. Brett, foi Leesha que me fez pensar que a leitura valeria a pena. Uma garota que, no começo da história, não era nada além de uma personagem feminina comum – e comum aqui assume o papel do estereótipo feminino nas publicações, o de uma garota sonhadora e frágil, que deseja casar e constituir família e é apaixonada por um personagem masculino da trama.

Durante o desenrolar da história e, depois de sofrer uma traição imperdoável de seu futuro noivo, que resolve dar uma de garanhão da aldeia ao espalhar para seus amigos que havia conseguido “deflorar” sua futura prometida, Leesha vê sua reputação ir por água baixo quando as pessoas que antes eram suas amigas e vizinhas começam a ofendê-la de todas as formas possíveis. O abrigo de Leesha vem do lugar mais improvável: Bruna, uma famosa ervanária da aldeia, resolve acolhê-la como aprendiz.

Com o avanço dos capítulos, Leesha cresce, amadurece, e se torna uma mulher forte e independente, uma personagem que não precisa e não quer a ajuda ou a proteção de homem algum, contrariando os dogmas da sociedade machista criada pelo autor, inspirada na Europa medieval.

O autor me conquistou muito por incluir em sua história duas personagens femininas tão inspiradoras quando Bruna e Leesha, mas me perdeu ao fim do livro, após fazer Leesha sofrer um estupro grupal durante uma viagem, uma violência que não afeta em nada a conclusão da trama. Depois da violência, a personagem muda e começa a buscar apoio, amor e proteção em Arlen, o Protegido, personagem central da série.

No vídeo, eu discuto melhor o que essa cena, que para alguns pode passar despercebida, me fez sentir e pensar, como mulher, leitora e fã de Literatura Fantástica. Seria esse o “papel” das mulheres na fantasia – o de mártires e eternas vítimas de toda a violência que o autor quiser incluir em sua história? Parece justo criar uma personagem forte e independente, só para fazê-la admitir no fim que precisa de um homem para protegê-la? Que tipo de ideia é passada às leitoras mais jovens?

Meu recado às fãs do Ciclo das Trevas é o de que não, gurias, nós não precisamos de heroi nenhum para nos proteger. A literatura – e principalmente seus autores homens – pode até tentar nos fazer pensar que mesmo no protagonismo, nosso papel é de apoio de um heroi central super forte e poderoso, mas a verdade é que nós somos o que quisermos ser. Qualquer personagem feminina tem a força de ser um Protegido, basta o autor querer, e sem essa injustiça sexista de ficar pensando em romance e em família quando essa questão não assola a mente de nenhum dos protagonistas homens da história.

Nós, minas, só seremos bem representadas na literatura quando nos tornarmos autoras, idealizadoras de novos universos com protagonismo majoritariamente nosso. E quando as minas pararem de ter o protagonismo absoluto só como vítimas nas cenas de violência.

Foi a força de Leesha que me fez gostar de O Protegido e é por ela que continuarei lendo o Ciclo das Trevas, torcendo para que 0 machismo – seja ele proposital ou inconsciente – do próprio autor não façam Thesa perder a magia para mim.

 

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