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Eu fui: Aula Magna com Mia Couto

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Na manhã do dia 1º de Setembro, a partir das 10h, um dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa da atualidade falou sobre suas memórias no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Este não é um texto jornalístico, imparcial, meramente informativo. O motivo? Eu estava lá. E não é todo dia que se tem a oportunidade de assistir pessoalmente a maior inspiração literária da vida falar sobre suas próprias inspirações.

O objetivo da aula era falar sobre vivências, memórias e lembranças, onde o autor discorreu sobre o quanto suas vivências o inspiraram na vida literária. Desde muito jovem, a poesia já fazia parte da sua vida, mesmo que ainda não escrita. É incrível a forma com que, com sua voz calma e palavras especialmente escolhidas, ele consegue transformar tudo em poesia. Mia falou sobre a infância, sobre sentar no chão da cozinha para fazer o dever de casa e ver as saias das cozinheiras se movimentando como se dançassem. Disse que na cozinha se fez poeta e na rua, onde catava pedrinhas com seu pai, se fez mundo.

Moçambicano filho de imigrantes portugueses, em uma das falas mais bonitas da sua palestra, Mia destacou o quanto sua origem o formou enquanto pensador. Disse que a porta da sua casa era a divisa entre dois continentes, onde dentro era Europa e fora, África. Lembrou-se da guerra que atingiu a população de Moçambique por anos e anos, e o quanto a convivência com aquele povo, naquelas condições, o inspiram por tamanha força e oralidade que via.

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Divulgação. Foto: Gustavo Diehl

Mia também discorreu sobre sonhos, e o quanto eles são verdade sem realmente ser. Desde o começo, o autor destacou o fato de ter uma péssima memória, e, por conta disso, inventava sonhos para participar da roda de conversa de sua família no café da manhã. Para ele, seus sonhos inventados eram tão reais quanto os sonhos sonhados pelos outros. Sonhos são partes da nossa memória que se misturam, formando uma história original e única, e que só nós podemos lembrar. Assim como as histórias escritas.

Mia atentou ao fato de nossas lembranças serem particulares e únicas, e o quanto temos que nos esforçarmos para sermos os donos de nossas lembranças. Falou da tecnologia, do imediato, e do quanto as máquinas estão roubando nossas lembranças, memórias e vivências. Atualmente, somos contados através de telas, e ele teme que deixemos de ser contados por nós mesmos. Em uma frase que vai ficar pra sempre guardada na minha mente, ele disse que “não podemos deixar de sermos os donos de nossas histórias”. O projeto de ameba que aqui escreve se esqueceu de levar câmera, tamanha era a ansiedade. Mas, no fim, não ficar tirando foto ou gravando foi especial, porque me fez sentir exatamente o que Mia quis transmitir na palestra: essa lembrança somente eu guardo.

Não é mistério que aspiro escrever, apesar de atualmente as palavras faltarem. Saí daquela experiência com a cabeça renovada, inspirada, pronta para voltar a escrever histórias minhas, inventadas ou não. Minha principal inspiração me mostrou o quanto é fácil se inspirar. E o quanto as nossas vivências e histórias nos formam todos os dias. E que não há nada que seja lembrado que não possa ser transformado em poesia.

Obrigada, Mia Couto.

“Agora, quando desembrulho minhas lembranças eu aprendo meus muitos idiomas. Nem assim me entendo. Porque enquanto me descubro, eu mesmo me anoiteço, fosse haver coisas só visíveis em plena cegueira.”

– Cada Homem é uma Raça, Mia Couto.

 

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