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Livro: Cadê você, Bernadette? (resenha)

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Título: Cadê você, Bernadette? (Where’d you go, Bernadette: A Novel)
Autora: Maria Semple
Editora: Companhia das Letras
Pág.: 372; ano: 2013 (or. 2012)
Gênero: Romance epistolar, mistério

Se você não criar, Bernadette, vai se tornar uma ameaça para a sociedade

Quando vi a Ju Gervason falando em um vídeo sobre esse livro, eu achei muito interessante, mas não fiquei com vontade de procurar para ler logo. Aconteceu que eu me deparei com ele em uma livraria, e, convenhamos, é uma capa que chama atenção. Dei uma chance, comecei a ler no ônibus voltando para casa. Não quis soltar mais.

Balakrishna Branch, mais conhecida como Bee, queria muito um pônei. Para convencê-la a parar de pedir o tal pônei, seus pais prometeram que se ela se formasse na escola com nota máxima, ela poderia pedir o que quisesse. Anos depois, claro, ela foi o grande destaque da turma por ter tido o conceito máximo durante toda a escolaridade primária. O que ela pediu? Uma viagem para a Antártida com seus pais. Como haviam prometido, seus pais não poderiam dizer não. No entanto, dois dias antes da viagem, sua mãe, Bernadette Fox, simplesmente desapareceu do mapa. O livro mostra como esse desaparecimento aconteceu, e traz a busca de Bee pela mãe e a descoberta de fatos sobre seus pais e a relação de ambos dos quais ela jamais imaginaria.

Classifiquei esse livro como um romance epistolar, porque ele é contado em parte através de cartas, e-mails, entrevistas, boletins de ocorrência, enfim… E também é contado em prosa. Achei essa mistura de formatos muito interessante, pois fez o livro não se tornar nem um pouco cansativo. Pelo contrário, a cada carta lida, mais vontade dava de saber a resposta e o outro lado dos acontecimentos. Essa história não poderia ter sido contada de outra forma, pois pedaços são mostrados um por um, em ordem nada linear de cronologia, mas que no fim formam um todo perfeito. Isso foi o que mais me encantou em relação a esse livro.

A narração é deliciosa, assim como não é nada cansativo ler as cartas e os documentos, porque a linguagem é muito acessível. É uma narração em primeira pessoa diferente do que eu normalmente vejo, é gostosa de ler e não parece forçada. E olha que eu não gosto mesmo de narração em primeira pessoa. O enredo tem começo, meio e fim muito bem estruturados. A história não se limita aos acontecimentos que se desenrolam durante aquele período, mas ao que aconteceu muito antes e ao que vai acontecer depois. Maria Semple nos apresenta a história com o futuro, e resgata o passado no meio de um enredo que está acontecendo, voltando para o presente de uma maneira muito natural.

Quanto aos personagens… Eles não são nada planos. Nenhum ali é como o leitor imagina no início, todos possuem personalidades complexas e afetadas pelo contexto. E essas personalidades vão se mostrando conforme a história se desenrola. É interessantíssimo perceber como certos comportamentos se manifestam em certas situações. Ver como as pessoas, por dentro, quase nunca são aquilo que parecem. E esse livro traz esse tipo de reflexão de uma maneira extremamente simples, acessível e totalmente despretensiosa. E o melhor é que são todas pessoas normais (com exceção da Bernadette, que é maluca), como qualquer um. A própria Bee, uma garota que acabou de fazer 15 anos, parece ser uma menina bastante inocente, mas na verdade tem uma história de superação que nem ela entende muito bem, e isso, no fundo, a faz uma pessoa forte.
O relacionamento de Bee com os pais é tocante. Li algumas resenhas que falavam da relação dela com a mãe, mas eu, particularmente, achei fascinante a relação dela com o pai, Elgin. Eles são ao mesmo tempo unidos e distantes demais. Me fez refletir bastante sobre muitas questões das minhas próprias relações.

É um livro excelente. Não é alta literatura, e nem pretende ser, mas também não é um livro qualquer sem profundidade. Me apaixonei pela escrita da Maria Semple (ela é roteirista de vários seriados, como Mad About You), pretendo procurar mais obras dela para ler.

Avaliação: 5 xícaras (5/5)

Livro indicado demais para todo mundo que não curte histórias bobas, mas também não está no espírito de ler um grande clássico complexo. E também é uma ótima indicação para quem nunca se aventurou numa literatura onde os personagens são mais profundos e a história exige um pouco mais de atenção.

Ps.:
Duas observações que não poderiam deixar de serem feitas sobre essa edição da Companhia das Letras:
– A capa é maravilhosa;
– A revisão é um lixo. Erros bizarros de digitação e concordância. E sabe o que é mais tenso? São duas revisoras. Companhia das Letras, por favor, né…

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6 comentários em “Livro: Cadê você, Bernadette? (resenha)

  1. Mas pqp, eu fico fugindo de ler resenhas pra ver se minha to do list para de crescer e aí você me força a ler isso e u_u PRECISO!!! Eu já amei a proposta do livro só pelo que você descreveu, e eu ADORO essa ideia de alternar os tipos de narração, a leitura fica mesmo deliciosa. É, sigh, o jeito vai ser correr até o ePub mais próximo…

      1. BAIXEI! E li como se não houvesse amanhã. Sua resenha foi, como posso dizer? Perfeita! Eu concordo completamente sobre a narração não poder ter sido feita de outro jeito – ao mesmo tempo que foi o que mais me prendeu no livro, é também o que o torna muito delicioso de ler, além de te permitir conhecer muito bem o íntimo de cada personagem e como cada acontecimento isolado interfere diretamente na história principal. Eu amo a Bee, sou apaixonada pelo Elgie (mesmo julgando um criador da Microsoft, veja como meu espírito está evoluindo!) e a Bernadette… AHAHAHAHAHA A Bernadette é uma peça única. É certamente uma personagem que eu não vou esquecer nunca. Ela traz com ela toda uma aura de artista, além de mostrar como, de fato, algumas pessoas simplesmente não são desse mundo. Ela me encanta e eu soltei muitas risadas altas durante as passagens dela. Outro ponto que você ressaltou e que eu concordei muito é o quanto os personagens foram se revelando aos poucos; as pessoas são todas feitas de camadas, e eu nunca vi uma demonstração tão leve e clara disso como o que está presente nesse livro.. É mesmo algo que te faz pensar e aprender a se policiar com julgamentos precipitados.
        Sua resenha… Sigh, foi ela que me incentivou a ler o livro, então acho que você pode dizer que alcançou seu objetivo (pelo menos com uma pessoa!). Lendo-a de novo depois de terminar o livro, também concluo que você foi muito fiel ao que está escrito naquelas páginas. Eu amei, de verdade. Muito obrigada pela indicação. <3
        PS: ave Maria essa revisão chinfrim. Eu de graça faria uma revisão melhor que essa, pqp.

      2. Exatamente, a Bernadette é uma artista. Eu nunca tinha pensado nisso.
        Isso de os personagens irem se revelando foi o que eu mais gostei, na verdade. O próprio Elgie, até metade do livro é um personagem totalmente secundário, e de repente é um dos centros do livro. É incrível.
        E sabe o que eu acho tão incrível também? Esse formato epistolar de narração parece muito que vai ficar algo faltando, algo vago. E é exatamente esse formato que permite o aprofundamento na história.

        Fico feliz demais por tu ter gostado, sério mesmo. Sensação missão cumprida! <3

  2. Esse livro. Eu tava só esperando ele surgir por aqui pra dizer que morro de vergonha de ter tanta vontade de saber mais sobre a trama, mas nunca ter pensado em comprá-lo. Talvez na Black Friday, quem sabe.

    E tantos blogueiros bons falaram dele que eu só fiquei com mais vontade. Você falando agora foi a gota d’água da minha sensação de PRECISO LER ISSO, MANO.

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