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Livro: Marginais (resenha)

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Título: Marginais
Autor: Evel Rocha; editora: Praia ASA/Gráfica Praia
páginas: 223; ano: 2010

 “Aquilo que os outros chamam de delinquência,
chamamos de sobrevivência.”

Com uma narrativa crua e de descrições fortes, Evel Rocha traz em Marginais um relato ficcional que, segundo o narrador, “muitos jovens deste país gostariam de ter escrito”, sendo Cabo Verde o país ao qual se refere.

A história de Sérgio Pitboy, narrada em primeira pessoa, é entregue por ele a um colega de liceu após um encontro casual entre os dois. Sérgio, que já mostra grave debilidade física de anos de marginalidade, pede a esse colega que leia as anotações e veja se vale a pena a publicação e, caso não valha, pede que as rasgue e queime. Sérgio diz ainda que as anotações foram feitas para anestesiar a angústia e descrever os dois mundos nos quais viveu, mundos que chama “dos explorados e dos exploradores”.

Durante todo o percurso da narrativa, Sérgio Pitboy – muitas vezes censurado por esse colega por trazer trechos demasiadamente realistas e por poder-se questionar “a dignidade de muitas pessoas da ilha”, recriada por Rocha – conta toda a sua infância e adolescência vivendo como um marginal.

Filho de uma mãe trabalhadora que sempre sonhara vê-lo doutor advogado, Sérgio do Rosário Araújo, vulgo Sérgio Pitboy, vive rodeado de pobreza e fome, sonha em ser jogador de futebol e doutor advogado, como a mãe sempre quis, pois assim poderia ser famoso e ajudar as pessoas que viviam na mesma pobreza que ele, além de encher a mãe de presentes. Faz o possível pra enganar a fome, se revolta contra os mais abastados que detém o poder na ilha e desprezam os pobres e sonha.

Junto com outros meninos, a maioria vivendo nas mesmas condições de Sérgio, forma o grupo dos Pitboys, que reúne gente suficiente pra montar um time futebol e que, de maneira geral, serve para que eles se vinguem da rejeição social. De fato os relatos feitos sobre a vida de Sérgio não são feitos de maneira convencional, mas sim com descrições cruas e secas, com palavrões e expressões grosseiras.

As personagens são muitas e se apresentam durante todo o decorrer da narrativa. São pessoas de todas as classes que fizeram parte, de alguma forma, da vida de Sérgio. Fusco, Beto e Ricardo Pianista, amigos que estão presentes desde a infância até a fase adulta do narrador-protagonista.

Com um discurso desiludido e sem esperança, Sérgio Pitboy narra sua vida de pobreza e fome, seu envolvimento com drogas, consumo e tráfico, seus relacionamentos afetivos, sua revolta com os poderosos da ilha, seu sofrimento por não ter podido se tornar um jogador de futebol, por não ter conseguido se formar doutor advogado. Narra a morte de pessoas com as quais se relacionou e as desgraças que abraçam a maioria dos marginalizados. Teme a deus com medo e desaprende a amar.

Apesar do modo cru e seco de narrar, Evel Rocha traz uma literatura fluida e que prende o leitor de todas as formas, seja pra se horrorizar, seja pra rir. É uma realidade diferente da que estamos acostumados a ver, mas, ao mesmo tempo, é algo que pode ão soar tão distante assim. Mas o impacto recebido durante a leitura é claro que me causou certo incômodo até físico; um misto de revolta e vontade de mudar o que fosse possível e estivesse ao meu alcance, principalmente em mim mesma.

Infelizmente, a circulação do livro no Brasil é mínima e não sei quanto à disponibilidade dele em vendas pela internet. Mas é um livro incrível e que me fez realmente parar pra pensar que talvez reclamar do meu ônibus cheio todos os dias seja de uma insignificância ímpar.

Avaliação: 4 xícaras

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Um comentário em “Livro: Marginais (resenha)

  1. Fiquei com vontade de ler esse livro desde que você me disse que escreveria a resenha sobre ele. É uma pena esse problema sobre a aquisição do livro, porque acho que histórias como essas deveriam ser mais do que divulgadas, e todo mundo deveria ter acesso a elas. (Ou talvez seja o meu lado biblio falando alto até demais.)

    Parabéns pela resenha <3

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