Entrevistas · Extras

Conheci: Leonel Caldela (entrevista)

Leonel Caldela

Quem? Leonel Caldela
O quê? Autor da “Trilogia de Tormenta” e dos romances de fantasia “O Caçador de Apóstolos”, “Deus Máquina” e “O Código Élfico”.

O post de hoje é mais do que especial para os fãs de literatura fantástica. Conversei recentemente com o Leonel Caldela, autor do livro “O Código Élfico”, lançado em abril de 2013 pela Fantasy – Casa das Palavras e já resenhado aqui no blog. Na entrevista, Leonel contou o começo de sua relação mais do que proveitosa com a fantasia e os autores que influenciaram seu estilo inovador de narrativa e criação, além de dar detalhes de sua relação com seus personagens. E ele também nos adiantou um pouco sobre o seu próximo livro!

Chá de Prosa: De onde surgiu o amor por literatura fantástica?

Leonel Caldela: “Acho que surgiu junto com meu amor por todos os tipos de literatura. Cresci numa casa cheia de livros, e era incentivado a ler de tudo desde muito cedo. Era natural que gostasse de literatura! Mesmo quando criança, eu me aventurava além dos ‘meus’ livros e ia para a prateleira gigante dos meus pais, descobrir clássicos, tentar literatura mais “adulta” ou só matar a curiosidade com aquelas capas e títulos.
Em meio a isso, eu era também fanático por quadrinhos – aprendi a ler com HQs. Eles ajudaram a despertar o gosto pelas histórias com heróis e mais longe da realidade…
Por fim, quando comecei a jogar RPG, no início da adolescência, comecei a ter muito contato com fantasia, e esse amor se solidificou, Nada mais natural que tudo convergisse para uma ligação forte com a literatura fantástica. A primeira obra que me apaixonou no gênero foram as Crônicas de Dragonlance, numa edição antiga em português de Portugal.”

Chá de Prosa: Que autores você considera como influências ou inspirações na criação dos seus trabalhos?

Leonel Caldela: “Vários. Em termos de narrativa, Rubem Fonseca – ele é o mestre dos diálogos precisos, das frases cirúrgicas e da velocidade na narração. Além disso, cria tramas envolventes e personagens marcantes sem apelar para descrições longas ou ser prolixo.
Nas batalhas, Bernard Cornwell. Quando comecei a lê-lo, anos atrás, um verdadeiro mundo se abriu para mim – o tipo de ação visceral que eu só via nos quadrinhos se apresentou na literatura. Além disso, o Cornwell também é mestre em construir personagens apaixonantes e tecer temas complexos em narrativas de aventura.
Para o terror, Clive Barker. Ele cria cenas inquietantes e vilões e monstros realmente assustadores. Tem muita influência dele em quase todas as minhas obras, quando algo ‘horrível’ começa a acontecer, ou alguma mutação aparece…
George R. R. Martin é outra grande influência – me identifiquei de cara com ele pela impiedade e franqueza ao lidar com os personagens.
Neal Stephenson é o mestre das ‘grandes ideias’, um gênio ao colocar conceitos de ciência, economia, matemática, história, filosofia e muitos outros em tramas emocionantes, sem nunca ser chato e sempre instigando.
Para O Código Élfico, H.P. Lovecraft foi uma influência definitiva, pois usei muito do universo ficcional dele ao criar o meu.”

Chá de Prosa: Como foi o processo de criação de “O código élfico”?

Leonel Caldela: “Tudo partiu de uma frase do Raphael Draccon, coordenador do selo Fantasy e meu editor. Ele sugeriu criar uma história na qual ‘cientistas criam um elfo em laboratório no mundo moderno’. Só isso. Eu não sabia o que fazer com esse embrião, então misturei-o em um cenário de terror e aventura que eu havia criado para jogar RPG com meus amigos.
Os elfos acabaram se tornando, neste universo, uma raça ‘lovecraftiana’ – um povo poderoso, antigo e detentor de conhecimentos secretos, servos de uma deusa profana. Após pouco mais de um mês de pesquisa e preparação (enquanto fazia outros trabalhos), comecei a me dedicar exclusivamente a escrever o romance. Foram três meses de trabalho, que renderam uma versão com quase 700 páginas! Ainda não estava perfeito: o livro estava muito pesado, os elementos de terror estavam sufocando todo o resto. Mais um mês para reescrever tudo, e então chegamos à versão que foi publicada.
No geral, meu processo de criação depende bastante de ler obras diversas (desde livros-reportagens até RPG, quadrinhos e romances) e anotar relances da vida real que me parecem interessantes. Por exemplo, para o Código li dois livros sobre a situação dos manicômios judiciários no Brasil.”

Chá de Prosa: Com qual dos seus personagens você mais se identifica? Por quê?

Leonel Caldela: “Difícil dizer. Todos os meus personagens têm algo de mim – porque sinto necessidade de me conectar com eles, achar suas motivações para fazerem o que fazem, e só sei alcançar isso se colocar neles alguma parcela de mim mesmo. No geral, é mais fácil me identificar com os personagens mais ‘falhos’ e menos poderosos. Saindo um pouco do Código, me identifico com Iago, personagem de O Caçador de Apóstolos e Deus Máquina – é um escritor, então tive a chance de botar muito das minhas experiências nele. Atreu, protagonista desses mesmos livros, também tem muito de mim: desde traços de personalidade até opiniões e acontecimentos análogos com coisas que eu mesmo passei. Voltando ao Código, não sei se posso dizer que me identifico muito com Nicole, mas certamente ela é o personagem que mais gosto de todos que já escrevi até hoje.”

Chá de Prosa: Já tem algo programado para um próximo livro? Poderia nos dar um “teaser”?

Leonel Caldela: “Estou nos estágios iniciais de criação do próximo livro – aquela fase de ler, pesquisar, etc. Posso adiantar que vai se passar no mesmo universo do Código, mas não em Santo Ossário. Os personagens serão diferentes, as criaturas e deuses profanos serão outros. Mas será o mesmo ambiente. O clima de ‘todas as teorias de conspiração malucas são verdadeiras’ permanece, assim como os deuses lovecraftianos. Na verdade, eles terão ainda mais importância.
No início, eu pensava em afastar bastante o próximo livro do mundo contemporâneo – lidar apenas com passado e futuro distantes. Contudo, cada vez mais me sinto atraído por uma trama na época atual. Vamos ver o que sai.”

Chá de Prosa: O seu último livro teve como foco os elfos. E no futuro: quais criaturas fantásticas você pretende ou gostaria de incluir nos seus livros? Podemos esperar uma abordagem inovadora, como foi a dos elfos em “O Código Élfico”?

Leonel Caldela: “Gostaria de incluir criaturas clássicas do terror, como vampiros e lobisomens – mas sem a roupagem mais usual que conhecemos. Contudo, essas criaturas já foram muito exploradas, então não será uma tarefa fácil! Criaturas dos livros de H.P. Lovecraft também podem aparecer. Por fim, tudo pode ser verdade neste universo. Então qualquer ser fantástico pode existir! Eu acho que não saberia escrever uma grande saga sobre pés-grandes ou chupa-cabras, mas de repente…”

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Curtiram?

Para encerrar o post, queria agradecer ao Leonel pelo super carisma e a atenção com os fãs, características que fazem falta em muitos escritores conhecidos e que, com toda certeza, fazem o seus livros terem um sabor ainda mais especial para qualquer leitor.

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8 comentários em “Conheci: Leonel Caldela (entrevista)

  1. Adorei a entrevista e não sei se é possível mas fiquei mais curiosa ainda pra ler os livros dele!
    Adorei as influências, principalmente Lovecraft!

  2. Que simpatia! =D
    E pelo tanto de referências que ele teve deu para perceber que realmente houve um grande estudo para escrever os livros. A história do Código Élfico parece muito legal! Espero ler um dia, e também livros do Lovecraft que estou curiosa já tem um tempinho.

    1. Oi, Bruna. Tudo bem?

      Seu comentário levanta uma questão super interessante a respeito de literatura: a da originalidade.
      Soa um pouco pesado demais você julgar a originalidade de uma obra somente pelas “espécies” encontradas nela, não acha?
      O que seria de Anne Rice – tida como um grande nome na literatura fantástica – se não fosse pelos vampiros, criaturas já criadas por autores mais antigos? E o que falar então de George Martin que, quem diria, está fazendo muito sucesso e sendo super elogiado mesmo em um livro que contém dragões! E J.K. Rowling, então, com seus bruxos, duendes, elfos, lobisomens? Não há originalidade na obra desses escritores?

      Afinal, onde se encontra a originalidade de uma obra?
      A meu ver, muito além das criaturas que o autor optou por incluir em sua história. A originalidade de um livro se encontra muito mais na abordagem! Não tirando o mérito de autores que inventaram as próprias criaturas mágicas. Acho que esses merecem um mérito extra pela criatividade na composição de seus universos particulares, mas tirar o mérito de originalidade de um autor por utilizar criaturas criadas por outros em seus livros me soa um pouco estranho.

      O que diríamos, então, da falta extrema de criatividade de autores que escrevem livros cujos personagens são – veja só que absurdo – HUMANOS? Ninguém tem originalidade mais, pelo jeito!

      Grande abraço.

  3. Gente to pasma com as influências dele por que são lindas, ele fala até do Clive Barker que é um ser que eu adoro o que ele faz mas dificilmente escuto alguém citá-lo. Já no seu outro post eu já tinha ficado com vontade de ler o livros dele mas agora eu fiquei com vontade de ler todos eles por que tenho a sensação que o cérebro dele trabalha de um modo caótico só que em um sentido muito bom. E parece que além de tudo ele é muito simpático. Lindo post! =D

    1. Eu gosto muito da forma como o cérebro dele funciona – analisando pelo livro, tanto a narração quanto a história. Acho que não amei O Código Élfico por um detalhe mesmo, porque eu fiquei muito interessada pelos outros livros dele. E sim, ele é muito simpático e atencioso e eu adoro escritores assim.

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