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Livro: O Código Élfico (resenha)

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Título: O Código Élfico
Autor: Leonel Caldela; editora: Fantasy
páginas: 576; ano: 2013

Tempo fora do tempo; Mundo fora do mundo

A minha relação com o livro O Código Élfico, do brasileiro Leonel Caldela, foi, desde o primeiro capítulo, um misto de amor e ódio que se estende até agora. Não pela incapacidade do autor na criação da trama ou na linguagem utilizada, mas pela infinidade de detalhes que um leitor desavisado pode ter dificuldade de engolir.

Antes de explicar melhor o meu ponto em relação a esse misto de sentimentos dentro de um só livro, vou tentar passar aqui um breve resumo do que o leitor encontra na trama: tudo gira em torno de dois personagens – Nicole e Astarte -, que habitam mundos diferentes. Nicole Manzini é humana, estudante de mestrado, brasileira, mas que mora na Europa; Astarte é um elfo, príncipe de Arcádia – o universo fictício criado por Caldela -, filho de Titânia, a Rainha da Beleza. A distância, aparentemente infinita, entre esses dois mundos começa a diminuir no momento em que Nicole, praticamente atropelada por uma sucessão de fatos improváveis e trágicos, é obrigada a retornar à pequena cidade de Santo Ossário, no Brasil, onde morou na infância e onde é conhecida como a filha do Estripador das Hortênsias, o nome muito peculiar conquistado por Salomão Manzini depois de um assassinato em massa que chocou a população. Ao voltar para Santo Ossário, Nicole descobre a existência de um grupo de cultistas fanáticos da Rainha, que têm como objetivo abrir um portal de Arcádia para a Terra e ajudar os elfos sádicos e sanguinários a escravizarem a humanidade.

O parágrafo ficou enorme e eu ainda sinto que não consegui passar nem metade da ideia do que é a história. Várias vezes, quando meus alunos ou amigos me viam com esse livro – de um autor que infelizmente não é muito conhecido fora do universo dos leitores de fantasia e jogadores de RPG – e perguntavam qual era o enredo, eu me via obrigada a começar o breve resumo com “assim, é complicado”. Caldela não poupou esforços e muito menos criatividade na hora de compor o universo de sua trama e, nesse quesito, ganhou um pouco do meu amor de leitora. Elfos, humanos, cultistas malucos, serial killers, deep web, mercenários, Platão e mortos-vivos são só algumas palavras-chave que você pode esperar encontrar se decidir tentar compreender o que seria o tal “código élfico”.

Arcádia é mais do que um simples mundo. É um universo criado com base no conceito de Mundo das Ideias de Platão. Arcádia seria o mundo inteligível, fora do tempo e do espaço – e o autor bate muito nessa tecla para não deixar que isso seja esquecido durante a trama – e a Terra seria uma mera representação da perfeição de Arcádia no mundo material.

Parece complicado. Mas piora.

Muitos elementos d’O Código Élfico são tirados de aulas de Filosofia. A própria arquearia élfica, dominada por Astarte, implica que o arqueiro não seja nada além de um canal para o fluxo da “vontade do mundo”. Não é ele que dispara a flecha. Algo dispara”. E esse algo é deixado por Caldela meio no ar, ficando a cargo do leitor interpretar como julgar ser a melhor forma. Isso foi outro ponto que me ganhou demais.

Para os leitores que estão acostumados a elfos de boa índole e em ambientes medievais, cuidado. O livro requer uma postura mais aberta do leitor desde o começo, de modo que os que têm uma visão mais tradicional dos romances de literatura fantástica podem não curtir o trabalho do autor. Os elfos não são criaturas bondosas, com exceção de Astarte, que é considerado um rebelde por conta dessa postura. Por conta disso,  confesso que me espantei um pouco com o livro. Esperava, realmente, esse estilo de universo que estamos habituados a ver relacionados a elfos. E, na obra de Caldela, esse ambiente medieval não compõe quase nada do quadro geral da ambientação. Esse foi o meu primeiro momento de ódio, que logo foi superado, quando eu decidi que ia abrir a mente e deixar Arcádia me levar.

Outro detalhe que me deixou com um pé atrás foi a aparição dos mercenários mortos-vivos e dos remédios dados aos habitantes da pacata Santo Ossário para que se mantivessem indiferentes aos acontecimentos grotescos que abalavam a cidade. Eu acredito que neste ponto, Caldela empregou demais de sua criatividade para o rumo errado. Focou-se em tantos detalhes que se tornou uma tarefa difícil manter a atenção na história. Sabe quando temos aqueles sonhos tão absurdos que, mesmo dormindo, sabemos que não é real? Foi como eu me senti em alguns momentos da trama. Como se o livro fosse um ambiente fantasioso em que eu queria acreditar, mas que não conseguia por conta do excesso de elementos empregados.

Quanto aos personagens, existem alguns que se destacam: Nicole e Astarte – e admito que não me interessei muito por nenhum dos dois -, o mercenário sorridente Felix Kowalski e os irmãos MontagueEmanuel, um cultista obcecado pelo poder de Titânia e o grande vilão da história, e Abel, a única criatura em todo o livro que realmente ganhou meu coração (mais um ponto pro amor na dualidade).

O livro é recheado de clichês, tanto nas cenas quanto nos diálogos. Não é um demérito. Quem acompanha o blog já deve ter me visto dizer que não tenho absolutamente nenhum problema com a existência de clichês na trama, quando bem empregados.

O trabalho editorial da Fantasy (o selo da Leya – Casa das Palavras para literatura fantástica) nesse livro foi absolutamente incrível. A capa é linda aos olhos de qualquer um que goste do estilo, as páginas são bem diagramadas, gostosas de ler e com pequenos detalhes nas divisões de capítulo. E a revisão também fez um ótimo trabalho.

Outro ponto positivo do livro, além das cenas de batalha incrivelmente detalhadas, é o ambiente mórbido e obscuro que recai sobre Santo Ossário e se intensifica ao longo da história. Muito bem trabalhado e empolgante, foi o que me fez grudar no livro e devorar os últimos capítulos.

Avaliação: 3 xícaras (3/5)

Apesar dos fatores que mencionei ao longo da resenha e que me fizeram não amar o livro, recomendo a leitura a todos os que se interessem por universos fantásticos. Leonel Caldela é um nome relativamente novo no mercado e com talento de sobra no que diz respeito à criação de um universo completamente novo. É um novo olhar sobre as criaturas místicas que já conquistaram gerações.

Bônus: aqui aos fanáticos por Tolkien, tem uma surpresa para vocês dentro do livro. Uma super sacada do autor que remete às criações do pai da literatura fantástica moderna. Vale a pena conferir.

Bônus – parte 2: em seu site, Leonel Caldela apresenta uma sequência de posts sobre a criação do universo, personagens e trama de O Código Élfico. Muito interessante para quem já leu e quer entender melhor de onde vieram todos os elementos da história.

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10 comentários em “Livro: O Código Élfico (resenha)

    1. Compra sim! Além de ter uma narrativa super legal e umas ideias completamente doidas (coisa que eu adoro), o Caldela ainda é super acessível e muito simpático com os leitores. Daquele tipo que, se você mandar mensagem no Facebook, ele responde todo querido.
      Vou querer muito ler outros livros dele, com certeza.

  1. Nossa, sério, quando você me falava do livro, eu fiquei pensando “putz, isso não deve ser legal”, mas fiquei muito curiosa agora pra ler mesmo que tenha ficado a impressão de que o autor tenha dado uma viajada às vezes, mas só a parte de Platão já me conquistou.

    Preciso terminar minhas listas de leitura pra poder ler esse (e BdA, né!), porque realmente me chamou a atenção. Parabéns pela resenha <3

    1. Linda da minha vida! <3

      Sim, ele dá umas viajadas às vezes, na minha opinião, mas tudo acaba se ligando no fim. O que me fez classificar como 3 estrelas foi uma falta de "lapidar" o trabalho, tirar algumas arestas e tal. Mas a visão dele é bem diferente e a narrativa é algo bem gostoso de ler, apesar das inúmeras repetições pro leitor gravar alguns conceitos. Indico, cara.

  2. Elfos cruéis e diferentes do que estamos acostumados a ver já foi o suficiente para me deixar curiosa. E toda a trama parece bem interessante. Aquele negócio dos remédios dados aos habitantes da cidade me lembrou um pouco o que faziam em Admirável Mundo Novo e achei ainda mais legal por isso. Mas a pergunta que não quer calar é: o que tem do Tolkien no livro? hahaha Ai, agora vou morrer com essa curiosidade.

  3. Engraçado que voce me deixou mais interessada em ler este livro do que o ABdA por exemplo hauahuaha mas é q eu sou meio maluca e gosto de coisas que fogem bastante do comum. Eu sinto que vou amar este livro, acho que ele vai até cortar a fila por que fiquei muito curiosa agora.

    1. Isso se chama “dê espaço ilimitado pra May e veja ela pirar na resenha”. HAHA A minha resenha de ABdA foi muito superficial.

      Mas, cara, se curte coisas fora do comum, Caldela é o caminho.

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