Livros

Livro: O Caçador de Pipas (resenha)

Pipa

(Imagem: Camila Conti)

Título: O Caçador de Pipas
autor: Khaled Hosseini; editora: Ed. Nova Fronteira
páginas: 368; ano: 2005 (lançamento do original: 2003)

Por você, faria isso mil vezes!

Há um tempo eu queria começar a falar aqui sobre livros que eu li ou filmes que assisti, dando opinião, não só mostrando algo que eu queira indicar. Bom, vou começar a fazer isso agora.
O livro de estreia desse tipo de post será um que me foi indicado pela May há um bom tempo. Eu mostrei um leque de opções de livros pra ler e ela disse com muita certeza que eu iria adorar O Caçador de Pipas. E ela não estava errada, eu adorei. E odiei ao mesmo tempo.

O livro é contado em primeira pessoa por Amir, um garoto que sempre se sentiu rejeitado pelo pai. Seu pai, sempre referido como baba, é um homem extremamente respeitado dentro de Cabul, onde a primeira parte da história se passa. Baba tem um amigo e empregado de muitos anos, Ali, cujo filho de mesma idade de Amir se chama Hassan. Assim como os pais, os meninos são grandes amigos, que fazem tudo juntos e, inclusive, compartilham de uma mesma falta na vida: a perda das mães quando ainda eram bebês. A vida das crianças é muito tranquila, Hassan adora sentar e ouvir Amir ler histórias (Hassan não sabe ler) e chega uma determinada época do ano em que os garotos entram em uma competição de pipas. Entretanto, um acontecimento terrível marca a vida dessas pessoas e as muda para sempre, e desencadeia revelações de segredos escondidos.

O resumo sem spoilers da história é isso, mas, para dar minha opinião, eu vou precisar dar alguns spoilers.

O livro é realmente muito bom, Hosseini conseguiu construir uma história envolvente e muito bem descrita. O autor joga informações sobre o Afeganistão que são realmente interessantes para um leitor ocidental que nunca teve contato com as tradições islãs e com os idiomas afegãos. É construído o universo em volta da amizade de Amir e Hassan dentro da cidade de Cabul, mostrando como o lugar é bonito e como a vida das crianças naquela época era feliz. Gostei demais de entrar em contato com essa cultura, e com um Afeganistão que eu jamais havia ouvido falar até então.
É muito interessante também o modo como o autor descreve as transformações que ocorreram dentro do Afeganistão durante os anos de mudança de regime político, e como a população era dividida com essa mudança. Quando Amir volta a Cabul depois de muitos anos e se depara, como ele mesmo descreve, com outra cidade que não a da sua infância, e Farid diz que a Cabul da infância dele não era Cabul de verdade, se tem aquele choque de qual realidade é a realidade certa. Dá realmente vontade de ir atrás para estudar mais sobre o assunto.

Gostei muito da construção dos personagens, do caráter bem definido de cada um. A lealdade tão inquebrável de Hassan foi algo que teve grande impacto em mim, porque eu, sinceramente, não consigo imaginar alguém tão leal assim. O que não quer dizer que não exista. A forte personalidade de baba também é algo muito destacável, ele era um homem realmente independente e com fortes ideais.

Agora… Amir foi meu maior problema.

Eu o odiei do início ao fim do livro, odiei demais. Odiei de uma maneira física, uma maneira que fazia eu apertar o livro com força pela vontade de dar na cara daquela criatura. E isso foi incrível, porque foi exatamente o que o autor quis passar. Todas as justificativas que o próprio Amir dava para si para agir daquela forma covarde e mimada só aumentavam a minha repulsa. Não foi falta de bons exemplos, ele tinha um exemplo de grande homem em casa. E mesmo repetindo pra si que tinha inveja de Hassan e era como era por não ter o amor do pai, não foi algo que me convenceu. E não acho que era para convencer, acho, de verdade, que Housseini queria que eu odiasse Amir da forma como odiei.
E é por esse ódio que indico esse livro. Porque um livro que faz diferença é aquele que mexe com o humor e os nervos do leitor.

Quanto ao climax e o desfecho, não quero dar grandes spoilers. Gostei bastante, mesmo sendo algo previsível, foi um previsível que se encaixou e deu certo. Não sei se foi intenção do autor criar uma espécie de “redenção” para Amir, se foi, eu não comprei essa redenção. Não acho que ele fez pelos motivos certos. Ele quis limpar a honra do pai e tirar um peso que carregou por anos nas costas, não fez porque era certo, porque era o mínimo que se esperaria de uma pessoa. Por isso não acho que tenha se redimido de nada.

Meu único porém foi com alguns momentos da narração, a forma como o autor colocava alguns elementos. Achei que algumas coisas ficaram forçadas, acontecimentos desnecessários, que serviram só para impactar. Como, por exemplo, a cicatriz sobre o lábio que o Amir acabou ganhando. São coisas que me incomodaram um pouco, que não havia necessidade de estarem ali, mas não acho que atrapalhe na leitura ou abaixe o nível do livro.

Avaliação:  Pipas

Indico muito para quem gosta de entrar em contato com novas culturas, é um livro recheado dessas informações. E indico também para quem gosta de uma história envolvente, embora simples, onde os personagens vão causar impacto durante a leitura.

Anúncios

4 comentários em “Livro: O Caçador de Pipas (resenha)

  1. Não existe forma de não odiar o Amir, cara, e acho que isso foi um dos motivos mais fortes que me levaram a curtir o livro. Dá pra ver desde o começo que a intenção do autor era criar um protagonista com essa característica. Amir é um personagem forte, muito bem criado, tão humano que dá raiva. A gente é acostumado a ver protagonistas maduros, responsáveis, amáveis, porque muito autor acha que só se conquista os seus leitores se o protagonista for um reflexo daquilo que o leitor gostaria de ser. Hosseini surpreende por conceber um protagonista que é o oposto disso. E conquista por conta dessa escolha de personagem.

    Gostei muito da forma como você expôs as suas impressões, amor. Mesmo. E que bom que a indicação foi boa!

    1. Exatamente, o que mais me encantou é como o autor trabalhou Amir como um anti-herói profundamente, sem se importar na reação do leitor. É incrível.

      Obrigada por me indicar esse livro, cara!

  2. Então, eu sempre quis ler esse livro até o dia em que a minha irmã me fez sentar com ela pra ver o filme (que ela já tinha assistido algumas milhares de vezes). Em cinco minutos, eu já havia descoberto o que ia acontecer e quando ela olhou pra mim com aquela cara de criança assustada e me perguntou “Como você sabe?” como se eu fosse um vampiro de duzentos e cinquenta anos, eu me desestimulei totalmente pra ler e pra terminar de ver o filme, que abandonei sem arrependimentos.
    Agora que li o seu post, a minha curiosidade aflorou de novo (não da mesma forma), principalmente pela questão cultural, mas não sei, não sei se conseguiria me prender na leitura. E também fico me perguntando o quanto dessa curiosidade é sobre o livro de fato ou é só o seu jeitinho de escrever que faz com que eu simplesmente queira largar tudo e me focar nas suas indicações.
    Preciso tomar cuidado com a sua persuasão, muito sério.

    1. É como eu disse na resenha, não é um livro surpreendente, o desfecho é mais do que previsível. Mas, pra mim, ser previsível não é um defeito se for bem escrito, por isso indico. A história dos personagens e as personalidades deles são muito bem trabalhadas, e a parte cultural é realmente interessante. Por isso eu acho que esse livro é daqueles que não tem a menor importância ler depois de ter assistido ao filme. Dá uma chance!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s