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Seriado: Queer as Folk (resenha)

queer as folk seriado

Título: Queer as Folk (Os Assumidos);
desenvolvido por: Ron Cowen e Daniel Lipman;
elenco: Gale Harold, Randy Harrison, Peter Paige, Scott Lowell, Hal Sparks, Michelle Clunie, Thea Gill, Sharon Gless, Jack Wetherall;
ano: 2000 – 2005; duração: 5 temporadas e 83 episódios; país: Estados Unidos e Canadá

Welcome to Babylon!

Queer as Folk é o seriado divisor de águas da minha vida. Assisti em 2007 e ele nunca deixou de ser um dos meus favoritos. Já ouvi muita gente dizer que o seriado “é só putaria” ou que “não tem enredo” e não passa de “sexo gay”. Passei anos pensando que talvez eu tivesse superestimado a série, que a trama que, na minha cabeça, parecia tão elaborada e cheia de quebra de tabus podia não ser assim tão incrível e que talvez só tivesse impressionado uma garota de 14 anos fácil de agradar.

Pois bem, parei para assistir a série novamente agora e o que tenho a dizer é que: acho ela ainda mais incrível e mais repleta de facetas e lados do que minha cabecinha de pré-adolescente tinha absorvido. Por isso e por tudo o que Queer as Folk trouxe pra minha vida durante o colegial e até agora, eu sinto que preciso contar a vocês como foi o meu contato com o seriado. Welcome to Babylon!

A série gira em torno da vida de um grupo de amigos gays que moram em Pittsburgh, nos EUA: Michael, um personagem que eu não posso descrever como nada menos do que “um doce”, Emmett, a criatura mais fabulosa e com o maior coração da trama, Ted, um contador que poderia ser qualquer pessoa no universo, tem sérios problemas de auto-estima e sempre acha que está à sombra de todos, e Brian – marque minhas palavras, você nunca amou e odiou alguém com tanta intensidade quanto você vai sentir ao conhecê-lo.

Já no primeiro episódio, Brian – juro que pensei por meia hora em uma expressão para descrevê-lo perfeitamente aqui e não consegui pensar em nada melhor do que “pica das galáxias” (pensei em “garanhão” também, mas prefiro qualquer coisa que soe menos brega) – conhece Justin, um colegial que está descobrindo o universo gay, fugindo da redoma de proteção e preconceito na qual vivia. E o Justin, todo inocente e novo naquilo tudo, se apaixona pelo Brian de uma maneira cativante, com um jeitinho de paixão juvenil que encanta mesmo apesar de toda a “objetividade” e sexualidade pulsante – posso falar assim sem parecer um trocadilho? – do Brian.

Mas se engana quem pensa que o seriado vai girar em torno apenas do relacionamento bagunçado que os dois têm ao longo das cinco temporadas incríveis da trama. A cada episódio, somos apresentados a um novo problema tão humano e tão real quanto a essência de qualquer dos personagens do seriado. Não existem tabus. Acho que qualquer tabu que pudesse existir foi quebrado logo na primeira cena de sexo – incrivelmente detalhada – que deixaria estarrecida qualquer pessoa acostumada aos gays de telenovelas, que preferem dizer “te adoro” a “te amo” e abraçam o namorado em vez de beijá-lo.

Drogas, assassinato, homofobia – enrustida e violenta -, AIDS, prostituição, casamento, pornografia. Tudo isso é abordado e nada fica forçado, nada fica “too much”. Tudo parece se encaixar perfeitamente àquele universo enorme e multifacetado.

Entre os outros personagens que chamam atenção estão Melanie e Lindsay, um casal de lésbicas que acaba de ter o primeiro filho, Debbie, a mãe ativista do Michael, um tipo de mãe que qualquer um gostaria de ter, mas que – e o seriado deixa isso incrivelmente claro – está longe de ser perfeita, e Vic, o tio do Michael, um senhor também gay, soropositivo, que, na minha opinião, traz algumas das lições mais importantes de toda a história.

Existe também um seriado homônimo britânico criado por Russel T. Davies e que foi a produção que deu origem à série americana. Estranhamente, em todos esses anos, nunca tive vontade de conhecer o original. Costumam dizer que as séries são sempre melhores em sua versão britânica, mas sobre Queer as Folk, eu sempre ouvi o contrário. Aliás, eu não me lembro de sequer ter ouvido um único elogio à série britânica.

A minha relação com o seriado sempre foi a de uma pessoa que encontrou algo de que gosta muito. Eu me sentia extremamente em débito com a série por ter me ajudado a compreender melhor os diversos tabus que retrata, e bem em uma fase da vida na qual eu precisava desse contato com uma visão mais “mente aberta” do universo, uma visão que a maioria das pessoas tem medo de mostrar, justamente por medo dos malditos tabus. E de medo, Queer as Folk não tem nem um pouco.

Quando terminei de assistir, sentia uma necessidade absurda de mostrar a todos, de ver os meus amigos tendo contato com aquelas questões do mesmo modo que eu tive. E o seriado se tornou tão especial para eles quanto para mim – especial a ponto de até hoje, seis anos depois, ainda encontrarmos na trama assunto sobre o qual conversar.

Avaliação:  4 xícaras(4/5)

Queer as Folk é muito mais do que um seriado fútil sobre gays. É todo um universo por trás de um conceito: livre-se de seus tabus. Seja você.

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9 comentários em “Seriado: Queer as Folk (resenha)

  1. QaF fez parte dos nossos lindos anos de CTI e não poderia ter tido época melhor pra isso. Saudades das vezes que passávamos o dia conversando sobre o que tava rolando na série e desesperadas com o que poderia acontecer mais pra frente HAHAHA Preciso reassistir também. BRIAN, SEU LINDO!

    1. Nossos lindos anos de CTI me deixaram tanta saudade. Incrível como basicamente tudo que é importante para mim começou nessa época. Assista! Brian é ainda mais lindo do que eu me lembrava.

  2. Então, assisti “só” as três primeiras temporadas da série (mesmo tendo tudo gravado em DVD aqui em casa) e, acho que ao mesmo tempo em que Queer As Folk quebra tabus, reforça os maiores estereótipos gays, principalmente em relação à promiscuidade. Não que eu ache que o mundo é perfeito e que há um príncipe para toda princesa (ou, nesse caso, uma princesa para cada princesa e um príncipe para cada príncipe), mas a chuva de infidelidade da série chega a ser indecente. Essa foi, com certeza, uma das coisas que mais me irritou no seriado, sem contar com o fato de que o mundo já pensou ou já transou com Brian Kinney – e eu entendo que o sex appeal dele possa ser sentido a quilômetros de distância, mas por favor! -, que as personagens lésbicas são as mais chatas, sem sal nenhum e que, por último e não menos importante, o ciclo social de cada personagem gay se resume a pessoas gays, como se fosse difícil para alguem que é homossexual ter bons amigos héteros (e acho que nem cabe expor no que essa visã implica se pensarmos em homossexuais enquanto minoria).
    Eu consigo entender por que há pessoas que amam e que odeiam a série. Na minha opinião, Queer As Folk é um seriado que aborda questões importantes, sim, mas não o suficiente, não sempre e, mesmo assim, acho que não vale a pena ser visto (ainda mais por héteros!) se acaba abordando homossexualidade da pior maneira: reforçando estereótipos preconceituosos.

    1. Eu acho justamente o contrário quanto a essa questão de estereótipos. O seriado mostra personagens extremamente diferentes um do outro e humanos acima de tudo. Ao mesmo tempo em que mostra infidelidades e promiscuidade, mostra amor e carinho entre pessoas do mesmo sexo de uma forma verdadeira. São personagens feitos de carne e osso e não a velha e babaca representação do gay sem libido, sem desejos, vivendo às custas do espaço que é reservado a eles numa programação extremamente restrita a agradar os heterossexuais que não têm a cabeça aberta o suficiente para compreender que o sexo gay também é sujo – como qualquer sexo -, que o desejo dos homossexuais queima tanto quanto o de todo mundo.
      O seriado não é uma cartilha gay. Não tá aí pra mostrar que gays são uma espécie exótica que ninguém conhece e dizer “ei, você ouviu falar que gays são promíscuos. Olha como eles são o oposto disso!”. Seria utópico e igualmente homofóbico esperarmos um seriado que retratasse gays como criaturas unilaterais, que amam e são fieis e queridos o tempo todo. Gays são como qualquer um. E como em qualquer grupo social, encontramos promíscuos ao mesmo tempo em que encontramos fidelidade. Gays não são uma coisa ou outra. Gays são o mesmo conjunto de aspectos mutifacetados que faz de todos nós humanos.

      Mas eu nunca tinha parado pra encarar o excesso de promiscuidade da maneira como você apontou, gata. É sempre bom ver opiniões distintas.

  3. Já tentei assistir esse seriado muitas vezes, e nunca passei da primeira temporada.
    O mundo gay não é só gay, ele é muitas coisas além disso, o seriado não precisava trazer tudo (homofobia, dúvidas, sexo, AIDS…) tão forçado como eu achei que ficou. Mas isso não é o que me irrita mais, o que me irrita realmente são as péssimas cenas de sexo editadas naquele estilo mostro-não-mostro-câmera-doida-música-pornô e a mistura de atores terríveis fazendo personagens muito mal estruturados. Péssimo. Brian e Justin, pra mim, são como Mr. Grey e Anastasia Steele.
    Mas ao mesmo tempo eu entendo a importância que QaF tem dentro da temática, porque trouxe o mundo gay escancarado e real. Trouxe discussões e lições. Eu não tiro o mérito, acho louvável, inclusive. Mas só isso.

  4. Se Queer As Folk foi feito pra que a comunidade gay se identificasse com ele, os temas abordados e a promiscuidade tão à flor da pele foi um “mal” necessário. Sem esquecer que a monogamia e a família também existem e foram muito bem representadas no seriado com as lésbicas Mel e Lindsey.
    QAF foi muito influente na época na luta pelos direitos LGBT. Se hoje na Califórnia ou em alguns outros estados o casamento gay foi legalizado, o seriado teve muito a ver com tudo isso. Os adolescentes (gays ou héteros) que cresceram acompanhando tudo aquilo foram alertados do jeito como os gays eram tratados e muito depois votaram pra que isso mudasse de algum jeito.
    Agora, particularmente, o personagem mais adorado da minha adolescência foi Brian Kinney. Nunca ri, chorei e admirei tanto um personagem.
    Obrigada pela review. Decidi rever Queer As Folk e tenho certeza que vou curtir mais ainda pela 2a vez!

  5. Concordo que o mundo gay não é só gay, aliás, o mundo hétero também não é só hétero, mas nos livros, nas novelas e filmes mais comuns, os que tem como foco principal uma relação hétero, cadê a representação dos gays? Os cabeleireiros? O melhor amigo da mocinha? se for pra se ser assim, os héteros em QaF foram bem representados: os pais e a amiga do Justin, a Debbie, a Tracy, os amigos do David, o Hunter, enfim, o foco não são eles, mas eles estão ali e interagem com os outros personagens. Não faria sentido se QaF fosse mais um seriado em que tivesse vários personagens héteros e apenas um núcleo (normalmente o cômico) fosse a representação dos gays, não é a proposta do seriado.
    Sinceramente os temas abordados pelo seriado não são nenhum pouco forçados, pelo menos não pra quem já conviveu com situações parecidas, não é um conto de fadas pra tudo ser bonitinho.
    Sexo faz parte da humanidade e ser promíscuo não tem nada a ver com sexualidade da pessoa, frequento boates GLS e vejo vários héteros, assim como gays, se pegando em dark room e acho totalmente normal.
    A AIDS foi por muito tempo diretamente relacionada aos gays, era sim necessário que o seriado abordasse o assunto, até mesmo pra mostrar que é possível sim ter uma relação com alguém soropositivo e esse relacionamento terá suas dificuldades, como qualquer outro e por mais que a pessoa ame a outra, existem os medos dos familiares, amigos e até mesmo da própria pessoa diante dessa situação.
    Achou exagerado as cenas com ataques homofóbicos? Talvez a mídia brasileira não divulgue muito, mas os ataques sempre são piores dos que os retratados no seriado, repito, só quem já passou pela situação ou conhece alguém sabe que nada daquilo é exagero.
    Justin e Brian não tem nada a ver Mr. Grey e Anastasia Steele, pelo contrário, enquanto Grey aprisiona e sufoca a Ana, Brian desde o primeiro episódio, é franco com Justin, mostra que não quer nada sério e o deixa livre sempre pra se relacionar com outros… e com o passar do tempo a relação deles é muito mais do que apenas sexo, totalmente diferente do casal de 50 tons de cinza.
    Mariana Mortari, concordo totalmente com suas palavras a respeito do seriado, ele importantíssimo em minha e se hoje, tenho uma mente aberta foi porque convivi contigo e por ter me mostrado este seriado.

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