Caderno · Caderno da May

Caderno: Anjo de Barro

Tive hoje um daqueles momentos nos quais “escrever é preciso”. Eu já não tinha um desses há um bom tempo e estava ficando preocupada. Achei que esses meus surtos tinham acabado, que talvez esses minutos de criatividade tivessem sido anestesiados pelas leituras técnicas da faculdade. Eu acho importante mencionar, porque é uma coisa que realmente me assusta, mas eu morro de medo de perder a criatividade.

Um anjo – ou talvez um demônio -, desses que habitam a mente de todo mundo, me soprou esse texto aos ouvido e eu só me deixei levar.

Anjo de Barro

Por Mariana Mortari

Enquanto o mundo era mundo, eu pensava em ti. O que eu via não era nada senão o eu que não te pertence, que vive em mim e nada mais. Meu ideal em ti refletido.

Via tua fragilidade, a vida efêmera em forma de carne tão distante de mim. Frente à minha eternidade, sua existência não passa de suspiro deixado às pressas no momento de tristeza. E, ainda assim, é tu que cultivas a escuridão de inveja em meu peito; é em ti que penso quando a vida – a solitária vida eterna dada a mim – me abandona no tempo, faz de mim poeira do universo, banha-me no infinito do brilho opaco das estrelas na noite de neblina.

Em minhas asas, vejo as feridas refletidas de um espírito tão fragilizado, com capacidade de sentir nada que não o irreal. Criatura de sentimento vazio; olho as estrelas e nada vejo senão o infinito sem luz da existência sem propósito. É tu quem tens a vida que vejo refletida na lua. Tens o sentimento – humano, sujo como se espera ser uma emoção carnal, embebida no sangue cinzento que lhe corre nas veias. Tens a vida, tão eterna como pode ser na intensidade mórbida que te faz real.

Eu, em minha irreal existência, vejo em ti meu gole de sangue, meu suspiro de vida, meus olhos a refletir os seus – verde no verde, o início e o fim das encarnações do imaginário no papel carcomido por larvas. Encarnação do universo, real em ti, irreal para mim.

Vejo teus demônios a lhe devorar as entranhas. Lentamente. Torturantes. Teus olhos, antes verdes, agora opacos, vazios. Tu te contorces no chão de cinzas como a sentir o coração arrancado do peito por mãos em brasa.

Devoro-te inteiro. Livro-te da dor que injetava o sangue em suas lágrimas feridas. Tua agonia protegia o último lapso de vida que lhe escapava por entre os lábios rachados. E minhas mãos, ferventes como o próprio inferno em carne, dilaceravam-te a pele, penetravam-te as artérias, intoxicavam-te com o veneno que me cai dos olhos.

Enquanto o mundo era mundo, eu lembrei de ti. E me corroía a angústia da culpa por ter lhe roubado vida tão bela; me inundava o orgulho pela ruína de objeto tão perfeito que em mim nunca se fará igual enquanto as penas de minhas asas negras continuarem a cair uma a uma sobre a terra seca de seu túmulo.

Se sou teu anjo da morte, seja feito o meu destino, santificada fosse a beleza de tua boca antes viva. Que tu vejas o eterno tal qual foste tatuado em minha pele. E que tua alma encontre no tempo do cosmo a paz que roubei de ti.

Anúncios

11 comentários em “Caderno: Anjo de Barro

  1. Daqui a pouco baixa a polícia nesse blog achando que vocês são todas assassinas e. Okay, sem piadinha :3 Sabe, seu estilo de escrita é algo que eu não me imagino conseguindo fazer algum dia, principalmente as suas temáticas. Eu admiro isso, acho interessante ver pessoas fazendo coisas tão diferentes do que eu mesma estou acostumada a fazer. Sempre acaba me acrescentando algo, e eu acho isso muito bom, sempre. E, sobre morrer de medo de perder a criatividade, fique tranquila, todas nós temos, mesmo sendo a criatividade algo tão parte de nós que seria praticamente impossível perdê-lá totalmente. Mas entendo o medo mesmo assim. Enfim, parabéns :3

    1. Eu adorei o seu comentário, até porque esse estilo e essa temática sempre foram os que eu me dei melhor. E eu concordo. É incrível o quanto ler algo diferente acrescente e muito em nós.
      O medo de perder a criatividade me assombra e muito, então fico feliz sempre que consigo escrever algo que gosto.
      Obrigada!

  2. Eu já reli esse texto pelo menos umas quatro vezes, tentando encontrar algo à altura pra dizer e tudo que eu consigo formar é: que texto lindo ;;
    As metáforas, as palavras que tu usou pra ilustrá-las… <3

    Eu tenho grande dificuldade em conseguir expressar com clareza tudo que eu quero dizer quando realmente gosto de um texto (ou de um livro, ou de um filme, tanto faz, mas é algo que eu estou tentando melhorar). Algumas coisas me surpreendem tanto que eu fico speechless mesmo, e acho que esse é bem o caso aqui. Por um lado, eu não sei por que eu ainda me surpreendo com algo que tu tenha escrito soar tão bem aos meus ouvidos. Mas acho que é mais por perceber que… Idk, quando eu acho que já li o teu melhor texto, tu vem e me mostra que eu me enganei, porque tu consegue fazer melhor ainda. Acho que de tudo que eu já li teu, esse texto agora foi o que mais me impressionou e me deixou sem palavras. E pelo mesmo motivo, é o que eu mais gostei até aqui. Parabéns.

    1. Suas opiniões <3
      Cara, tu sabe como eu sou com as minhas descrições. As metáforas saem e eu nem vejo, tanto que dá aquele medo de eu ter escrito algo tão introspectivo que a única pessoa que vai ver algum sentido ali sou eu.
      E eu adoro ver que isso é só pira da minha cabeça. Eu queria poder me enfiar no seu cérebro pra sentir o que tu sentiu com o texto, porque eu tenho certeza que foi algo muito diferente do que eu senti escrevendo. Acho que esse é o poder das metáforas: criar infinitas possibilidades de sensações.

      Me deixa muito feliz – mesmo, mesmo – ver que você continua se surpreendendo com o que eu escrevo. São esses comentários que me dão o combustível que eu preciso pra continuar.

  3. Ah, nem tem mais graça eu dizer o quanto você escreve bem depois que todas já disseram! Brincadeira! HAHA Mas mesmo assim, vou dizer porque também é o que eu penso. Desde o primeiro texto seu que li, lembro que o que mais me chamou atenção foi a sua forma de descrever o ambiente e achei aquilo tão incrível, pois percebo que isso é um defeito na minha escrita e comecei a tentar me corrigir também. Esse texto, porém, é totalmente diferente dos outros textos seus que li. Posso dizer que dessa vez o que me chamou atenção não foram as descrições, mas justamente o contrário, a subjetividade e as metáforas que usou, principalmente no último parágrafo, que achei genial esse paralelo com uma oração (quer dizer.. eu interpretei assim hahahaha). Enfim, parece que não importa se você faz uso de uma narrativa descritiva ou algo subjetivo, mas sempre consegue dar muita emoção a tudo que escreve. Acho lindo. De verdade.

    1. Que lindo comentário, Jess! Eu adoro ouvir essas coisas de ti. De verdade. Fiquei sorrindo boba aqui a cada frase e tudo o que eu tenho a dizer é muito obrigada por ler e por me dizer o que achou.

      Quanto à interpretação, eu não gosto de comentar qual foi a minha intenção ao escrever, porque não quero que isso afete a interpretação de ninguém quanto ao texto. Converso melhor com você sobre isso pelo Facebook. ^^

  4. Texto incrível!

    Paro pra pensar naquelas fics do cursinho e vejo o quanto você evoluiu (tipo, muito. Muito mesmo!).
    Desde aquela época já dizia que gostava das suas descrições, mas você realmente está se superando xD

    Queria ter essa habilidade de brincar com as palavras, pois meu receio agora é não conseguir mais comentar em seus textos. Um simples “Ficou lindo, Mari” já não é mais digno de um trabalho tão fascinante.

    Parabéns! Tenho (e sempre vou ter) muito orgulho de você ♥

    1. Você é a pessoa mais importante da minha vida e saber que você tem orgulho de mim é muito maior do que qualquer elogio ou comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s