Caderno · Caderno da Cah

Mascherata

Nunca fui exatamente segura sobre as coisas que escrevo, tanto que minha produção caiu consideravelmente nos últimos dois anos. Pensei algumas vezes antes de decidir que, sim, postaria esse conto, que considero ser o meu favorito, aqui.

Eu gostaria de fazer uma apresentação sobre mim, mas eu nunca fui boa nisso, então eu vou apenas deixar o texto por aqui e esperar que agrade. E vou dedicá-lo à minha lindíssima Marina, porque o projeto original começou com ela.

Mascherata

Por Carol Romão

Veneza, 8 de março de 1871.

Novamente todos esses seres beberrões enchem as ruas, ruelas e vias dessa cidade. Muitos bebem tanto a ponto de caírem no Grande Canal e se perderem com todos os outros restos de carniça jogados pelos açougueiros que trabalham às beiras d’água. Muitos nem são daqui, dialetos estranhos. Não sou o mais inteligente dos seres que por aqui passa, mas sei que muitos vêm de longe. “Spacibo! Ach so! Cheers! Salut! Gracias!” ouço por todos os lados. Línguas que não são a minha. Desespero-me. Quero que fiquem todos quietos. Quero que parem de pilhar-se sozinhos no fundo do canal. Quero que parem de fazer minhas entranhas se revirarem em repulsa e ódio. Quero que o som da cantoria pare de lhe chegar aos ouvidos e que só ouçam seja o latido do Cão.

Já é noite quando a música chega a mim, como o zumbido de um irritante mosquito que interrompe meus afazeres. Levanto-me. Estou vestido, como todas as noites. Minhas mãos alcançam a máscara e tão rapidamente como sempre a amarro às costas de minha cabeça. Minha cicatriz não se esconde com ela, mas nada que a gola da longa casaca não esconda. Os botões de prata polida gelam-me as pontas dos dedos quando me coloco a fechar-lhes. A outra mão se estica para buscar o chapéu pendurado no mancebo. Da bolsa de couro, tiro um dos poucos itens que ela contem e guardo-o com segurança no bolso interno da casaca.

O vento ainda gelado sopra, mas não sinto frio. Meu sangue corre rápido, meu coração bate forte no peito. Ando no meio dos beberrões e das ditas senhoritas de classe, que se tornam grandes prostitutas quando o vinho lhes adormece a consciência. Entre eles, sou apenas mais um. Alguns se encostam a mim e riem, outros me oferecem os garrafões já pela metade de vinho barato. Não sinto paz. Sinto só um ódio que me consome de tal forma que minhas mãos suam e eu não consigo parar na mesma posição por segundos que fossem.

Paro, então, e penso que preciso manter-me calmo ou acabaria fazendo algo que me arrependeria depois. Espero que o grande grupo se afaste. Circulo por vielas escuras, mas vejo fornicação e bebedeira. Sinto o sangue correr violento, principalmente em meus pulsos e em meu pescoço. Deparo-me, então, com uma viela bem estreita, escura e vazia. Ainda ouço a música e os sons de risadas e gritaria, mesmo que distante.

“Hey! Psiu!”, ouço próximo dessa vez. Viro-me e uma moça me olha, sorri por detrás da máscara. Seu vestido tem em combinações de azul, preto e detalhes em branco. “Boa noite, gentil senhor.”, ela diz e o riso que segue me faz sorrir em desprezo e repulsa.

“Boa noite, jovem senhorita.”, digo e faço um floreio com a casaca, abaixando a cabeça em uma reverência. Vejo-a levar as pequenas e delicadas mãos à boca, para abafar outro riso. “Não deverias andar sozinha em épocas como essa. São perigosas como as palavras na boca de um sábio.”

“Segui-o desde que o vi, perto da igreja. Não é tão comum ver máscaras vermelhas e pretas esses tempos…”, ela diz graciosamente, aproximando-se. Por um momento sinto-me incomodado por não ter sentido que alguém me seguia. Não era seguro. “Seguiu-me?” pergunto e aproximo-me o tanto que resta para que fiquemos à distância de um sopro. A mão direita vai imediatamente até o bolso interno da casaca, ouso dizer que é uma ação quase inconsciente. A mão esquerda sobe pelo colo dela, roçando seus cabelos escuros e cacheados e então sua bochecha macia. “Segui. Precisava saber o que vermelho e preto escondem tão bem.”, ela diz e levanta as mãozinhas delicadas para tocar-me o peito e a bochecha por dentro da gola.

As mãozinhas não chegam a relar-me a pele antes de seus olhos se arregalarem em pânico e dor e a boca arreganhar-se num grito mudo, num pedido de ajuda, numa prece de misericórdia. “Perdoai, Pai, por tudo que eu fiz”, é o que a ouço dizer em pensamentos. Sinto o morno sangue me escorrer por entre os dedos, enquanto ouço o leve som das fitas que seguram o espartilho tão bem preso ao corpo se estourarem. Uma por vez, lentamente, enquanto a lâmina do punhal desliza fácil, cortando tudo que encontra. O cabo começa a ficar escorregadio, mas eu não solto, até que toda a vida que ainda restasse naqueles olhos se esvaia. A boca começa a perder o formato e o corpo, até então rígido, começa a amolecer e perder as forças.

Ela então cai. Os olhos arregalados me encarando, o ódio e o desprezo voltam pulsantes, mas, antes de partir, ajoelho-me a seu lado e limpo a lâmina na saia do vestido bem costurado. O punhal volta para o bolso e eu faço o mesmo caminho de volta pelo qual tinha ido.

Deito a cabeça no travesseiro, mas não durmo. Coloco-me a encarar o teto até que a cantoria cesse, os pássaros comecem a cantar e os carabinieri a soprar seus apitos durante a ronda. Levanto-me e visto minha roupa de trabalho. Branca. Impecável. Passo pela sacristia e então pelo altar. Faço minhas preces matinais e então caminho pelo corredor para abrir as portas da igreja.

“Bom dia, padre.”, uma jovem me sorri, pegando minha mão e beijando-a. “Sua benção.”. “Deus lhe abençoe, minha filha.”, eu digo e sorrio, dando-lhe boas vindas à casa do Senhor.

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5 comentários em “Mascherata

  1. Esse conto. ESSE CONTO. Esse conto é uma das provas mais definitivas de como você deveria escrever mais e que é muito triste ter tão pouco de você publicado pra todo mundo ver, porque você é ótima quando se solta e consegue fazer sair algo assim. Mas eu entendo como bloqueios são terríveis e que, geralmente, não conseguimos ter controle sobre eles.
    Enfim. Esse conto é sensacional e ele me arrepiou de novo. Parabéns e torcerei demais pra ter a chance de ler mais coisas suas por aqui <3

  2. Incrível como eu li esse conto e fiquei andando pela casa de boca aberta durante uns bons segundos. Nossa, Cáh. Nossa!, que envolvente!
    Eu fiz diversas associações enquanto estava lendo seu texto. No começo, imaginei perfeitamente o cenário do filme “Casanova” na minha cabeça enquanto a escrita me levava a lembrar do livro “A armadilha de Dante” (muito mais pela ambientação do que pela narrativa), depois, por motivos um pouco óbvios, pensei em The Following e, no fim, veio-me o filme “O Padre” por conta de toda a questão do pecado e tudo o mais.
    Eu tô simplesmente pasma com a maneira como a leitura fluiu, sabe? Uau, eu consegui montar aos poucos uma personalidade pro personagem, imaginando suas reações, a maneira como parecia interessado e, ao mesmo tempo, repelido pelo carnaval, como uma espécie de repulsa mesmo. Acho que, no fim, tudo se explica.
    Obrigada por dedicar seu conto a mim, sério, estou muito mais do que honrada <3

    P.s.: penso muito em te matar nesse momento, tanto por ter escrito algo tão desse porte (e a palavra que eu queria usar era "foda!", mas estou tentando não ser tão vulgar, eufórica e surtada com o que li) quanto por ter escondido (sim, escondido!) esse conto por tanto tempo. Parabéns pelo texto e pela coragem de divulgar seu dom.

  3. Eu acabei de ler esse conto e tudo o que me veio à cabeça foi uma conversa que tivemos há alguns anos, talvez, sobre gêneros de escrita. Eu, desesperada, te contei que acreditava nunca ser capaz de escrever algo engraçado, e você rebatia dizendo que talvez não soubesse trabalhar sua escrita com drama e suspense.
    Me lembrei disso e acredito que sei porque: você não fazia ideia, quando me disse isso naquele dia, do quanto você estava errada.

    Adorei.

  4. descobri por acaso esse seu blog. Não quero forçar minha presença. Então, não vou “assinar” o follow. Mas, preciso dizer: seu texto está precioso. Não desperdice seu talento.

  5. Eu queria pedir, sei lá, antes de mais nada, desculpas por não conseguir montar um comentário que seja decente aqui.
    Mas tipo, eu li ontem… Fiquei impressionada. Reli hoje e ainda não me julgo capaz de comentar tudo que eu queria sobre, então se é assim… É porque não vai sair HAHAH

    Eu acompanho teu trabalho e não é de hoje. Li muita coisa tua na FS, apesar de não ter comentado em tudo. E cara… Eu não sei ainda o que dizer sobre esse conto. Tanto por ter me deixado toda ~çel~çdlf~çdfl~ pelo final tanto por ser tão diferente de tudo que eu acostumei a ler tu escrevendo (com uma exceção leve da A Whisper, que não pesa tanto pro lado desse conto, mas tem seu toque de drama). Eu… Ainda estou surpresa. Mas por um lado muito, muito positivo. E espero ver tu postando mais dos teus contos por aqui, em qualquer que seja o estilo, porque mesmo depois da surpresa, descobri que estou com muita saudade da sua narrativa.
    É isso. Desculpa, não sei comentar nada mais construtivo no momento. ;;

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