Caderno · Caderno da May

Caderno: Amor de mel

Quando o Chá de Prosa entrou no ar, tudo o que eu sabia era que eu queria postar algo logo, mas nada me parecia importante o suficiente para um primeiro post. Pensei em fazer crítica de algum livro ou filme que gostasse muito, mas o pensamento é tão volátil que eu tinha medo de – em um mês – olhar para o post e me perguntar por que teria achado tão importante publicar aquilo na estreia do blog.

Bom, as coisas que gostamos nos descrevem demais, mas não nos descrevem tanto quanto as coisas que fazemos. No meu caso, o momento em que entendo mais sobre mim é quando releio coisas que havia escrito há algum tempo.

Eu tenho essa mania de nunca escrever sobre mim. Não saberia nem como começar. Para resolver o problema, fico criando personagens na cabeça – como eu sei que muitos fazem. Um deles me sussurrou esse texto há algum tempo e acho que, se eu queria algo que me descrevesse no primeiro texto do blog, acho que não poderia ter escolhido texto melhor.

Amor de Mel

Por Mariana Mortari

O papel, a caneta nas mãos trêmulas e o pensamento pesado de palavras. As vozes, as ouço, mas nada parecem me dizer. Apenas sons, fundo ao pensamento do qual não se pode fugir.

É tua voz a única que me penetra as barreiras, ainda que teu rosto não se faça presente. Escuto teus sons, teus suspiros infundados que me enlouquecem no calor da noite. E continuo a ouvi-los ainda pela manhã e sempre e para sempre. Sei que sua melodia não me deixará tão fácil, ainda que lute contra os acordes, ainda que a música do rádio encubra-os, mesclando-se ao tom que é tão teu.

Tento guardar-te junto a mim, fundindo o cheiro nos lençóis ao tesão que não mais queima, ao desejo morno amadurecido por lágrimas solitárias a umedecer páginas do caderno.

O nosso amor não mais caracteriza a paixão jovem, nua, leve, paixão adolescente dos velhos tempos de álcool quente a inundar o sexo sujo que nos fazia tão vivos.

Eu me acostumara a sentir o calor dos teus cabelos no travesseiro, leves fios castanhos a se misturarem e embaraçarem ocultos pelo edredom. Você soava tão confuso, tão livre e tão preso aos meus lençóis, deixa em mim a tua inconsistência em forma de cheiro. Amêndoas, cigarro, hibisco, mel e hortelã.

E assim se foi, levando o cheiro, o mel e o calor morno, tão ardente em minhas lembranças e tão frio em seus gestos. Nos teus olhos eu via a chama brilhar fraca, te ligando ao que restava do eu que tanto amou em mim, agora moldado, patético.

Eu perdoaria a partida, eventualmente. Prometeras me amar para sempre, e tanta fora a minha mudança e tanta a tua mudança que eu não mais me parecia com o personagem da jura de amor eterno e você, machucado pelo sentimento de culpa da traição de tocar aquele que não mais era parte da jura, deixou-se levar pela promessa do tempo de evoluir alma e pensamento e assim se perdeu no oceano que formava a si próprio.

Quando fixo os olhos no vidro espelhado na parede do corredor, vejo a mim e vejo o eu que perdi, o que te ama no calor do toque que se passou. O meu agora-eu não te ama menos, mas ama do jeito morno que te afastou, ama um amor idoso de memórias, sonhos perdidos, cheiros e fotos nos porta-retratos de cabeceira.

E ainda busco a ti no cheiro deixado no travesseiro, os cigarros, o mel e as amêndoas, e me pergunto se esse não seria o meu próprio cheiro atiçado por memórias do nosso amor de mel, quando provávamos o doce um do outro, sentíamos o toque nos músculos jovens um do outro e acreditávamos no amor – que talvez algum dia viesse a se esgotar, mas que nós, eu e você, seríamos sempre os mesmos, como na época nos orgulhávamos de ser, tão corajosos, românticos sujos, almas vagantes na escuridão de universos alheios, de corpos alheios.

Tanto nos permitimos em nosso orgulho das descobertas que esquecemo-nos de que o tempo é a única certeza.

Estávamos tão errados em nossa crença e isso nos custou não o amor que partilhamos, mas a nós mesmos, pessoas que existiram, viveram, amaram, e que agora repousam junto ao tempo, presos a um passado que fica em lembranças.

Você foi o meu mundo e eu fui a sua vida. E assim estávamos certos de que seria até a morte. Mas nós estávamos errados.

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6 comentários em “Caderno: Amor de mel

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